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Rosa Affair

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Quarentena: o novo normal

Não se sintam sozinhos. Eu também estou aqui, cansada, de cabeça cheia, com remorsos, mas acredito que valeu a pena e que o pior já passou. Mais mês, menos mês, isto volta tudo a um novo normal. Vou considerar que estive a fazer um mestrado em educação de infância pós-laboral sendo que nunca vou saber se fui bem-sucedida e qual a classificação final. Na minha tese de mestrado irão aparecer coisas muito interessantes e passivas de análise, como gritar que nem uma louca, deixar as crianças comer doces sem controlo, deixá-las abandonadas na sala, rezar para que elas consigam entreter-se sozinhas sem me interromper, deixá-las ver televisão ou youtube quando deveriam estar a dormir a sesta.

 

Não se iludam, isto não fica por aqui, a lista é interminável.

 

O desespero leva-nos a fazer coisas impensáveis: troquei as regras da aplicação Family Link que controla os horários e a duração do tempo que o tablet está inativo, para apenas o inativar aos fim-de-semana e após o meu horário de trabalho. Agora é "wake up and play no matter what". Desliguei o controlo dos jogos que instalam. Estavam sempre a interromper-me nas reuniões para eu apontar o nome do jogo para instalar depois (maldita publicidade nos jogos grátis). Dei-lhes acesso sem controlo a uma Playstation 2 e a uma Nintendo (NES) clássica. Um comando já não funciona e os cds estão cheios de dedadas. Mais dia menos dia, posso dar os jogos como falecidos e fazer o funeral às minhas relíquias de infância.

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Quando começo as minhas aulas de mestrado, em horário pós-laboral, além do cuidado que tenho de ter para não pisar os milhões de brinquedos espalhados pelo chão, a criançada ainda me cobra centenas de brincadeiras, pois estão sempre aborrecidas.

 

Fiz uma encomenda de colas, tintas, canetas, folhas, tesouras e tudo o que é possível de imaginar numa creche e pré-escolar para fazer atividades, que acabam sempre por se revelar super interessantes para a educadora e com interesse quase nulo nas crianças. Basicamente elas começam entusiasmadas, passados cinco minutos o entusiasmo passou a zero e é a educadora que acaba por terminar as atividades sozinha ou então o entusiasmo é tanto que agarram nas tintas e começam a espalhá-las por tudo o que é chão e cortinados. E aí, é o meu entusiasmo que passa a nulo e a minha voz que começa em modo gritos.

 

Juro que quando as miúdas falam comigo, já só as consigo ouvir a gritar.

 

Mesmo assim estou orgulhosa do novo mural da parede da cozinha que já me custou 2 rolos de fita cola, uma vez que é impensável ser a educadora a colar os trabalhos das crianças. Qualquer criança de 3 anos e 5 anos tem autonomia suficiente para colar um trabalho à parede com fita-cola e às vezes com facas que vão buscar à gaveta às escondidas. Haja paciência. Convém salientar que a maior parte dos trabalhos estão arquivados num dossier chamado lixo uma vez que a parede não dá para tudo. Um caso de estudo seria investigar porque é que a única tarefa que entusiasmou a criançada nesta confusão de trabalhos foi fazer a varicela ao Pikachu.

 

Depois ainda posso agradecer à RTP2 e às maravilhosas ideias de um programa que não sei como se chama (dá no Zig Zag). O resultado é este:

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Tenho de admitir que nesta quarentena este foi o jogo que as crianças mais se divertiram. Passar por uma teia de papel higiénico para coletar objetos, com tempo limitado e sem rasgar o papel higiénico, foi muito divertido com entusiasmo semelhante a um parque de diversões de insufláveis. Este teve direito a pódio e prémio e à criançada ir dormir sem reclamar.pray.png

 

Da parte que me toca e pensado em tudo o que este mestrado me trouxe, tenho ainda a salientar algumas situações:

 

- O Clássico: estar em reunião e de repente uma das crianças gritar "mãe cocó nas cuecas" cinco vezes. Uma vez não chega, pois enquanto não houver resposta por parte do recetor da mensagem, a criança não percebe que foi ouvida. Fez-se silêncio, foi feito um comentário que nem ouvi com atenção, pedi desculpa e ausentei-me da reunião.

 

- O Desespero: não consigo contabilizar as vezes que deixei os colegas a falar sozinhos, desliguei o microfone e gritei que nem uma louca a pedir por favor para me deixarem trabalhar, que estava na reunião mais importante do dia e que aquilo que me estavam a pedir não tinha importância. Quando voltei à reunião estavam a comentar que eu deveria estar com um problema técnico com o microfone pois não estava a responder, ao qual eu confirmei... Muito cansativo ter que explicar a importância do pedido de uma criança. Há quem perceba, há quem não perceba...

 

- A Fome: a criançada quando fica aborrecida, fica com fome. E com fome todos entram em desespero. Começam a empurrar as cadeiras da cozinha para alcançarem as bancadas, sobem para cima da bancada para abrir os armários onde estão as coisas que não é suposto comer. Sujeitas a cair e irem para ao hospital, lugar esse que todos queremos evitar. Esta situação aciona a situação do Desespero.

 

No meio deste caos ainda foi possível ensinar à criança de quase 3 anos como usar o bacio. Por incrível que pareça e no meio de alguns gritos involuntários (outra vez), em pouco mais de um mês deixámos de precisar de fraldas de dia e de noite. É a maior das vitórias nestea  quarentena mestrado. Yupi.

 

Deem lugar à paciência que tudo se resolve. Coragem!

 

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Princesa Peach e Pikachu com Varicela!

 

Nota: O papel higiénico foi aproveitado, não se assustem...

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